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Conversas difíceis, estudos e vício em trabalho: como Filipe Luís guiou o Flamengo à final da Libertadores

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    MDD Sports
  • há 8 minutos
  • 7 min de leitura

Conversas difíceis, estudos e vício em trabalho: como Filipe Luís guiou o Flamengo à final da Libertadores


Treinador muda as características que tinha na época de jogador, destaca-se na nova função e tenta entrar para a lista dos maiores do clube pouco mais de um ano após assumir o cargo



“Ele vai ser mais feliz como treinador do que foi como jogador”.

A frase acima ilustra o sentimento diário de Filipe Luís desde que assumiu o time profissional do Flamengo, em 30 de setembro de 2024, menos de um ano depois de se aposentar como jogador. Bicampeão da América pelo clube rubro-negro como atleta, o ex-lateral-esquerdo viverá neste sábado o maior desafio da vida de treinador até aqui: a final da Libertadores contra o Palmeiras.


Na decisão de 2021, ele saiu lesionado no primeiro tempo na dolorosa derrota para a equipe paulista. A chance da revanche apareceu em outra função, que exige mais responsabilidade e provoca maiores cobranças.


Como Filipe Luís se moldou como técnico e levou o Flamengo a mais uma final? O ge ouviu jogadores e funcionários que acompanham o trabalho do comandante. A maioria preferiu não se identificar, por entender que o treinador não gostaria de ver seu dia a dia analisado publicamente.


A preparação para o novo cargo começou ainda quando Filipe Luís era jogador. É conhecida a história que ele anotava os treinos de Jorge Jesus no Flamengo, em 2019/20. Do português, inclusive, adotou diversos comportamentos, como o de correr com os atletas no aquecimento e o de revelar times na preleção.


Outra referência para o atual comandante rubro-negro é Diego Simeone, com quem conversava frequentemente sobre tática nos tempos de Atlético de Madrid.


Com Dorival Junior, Filipe chegou a fazer parte da comissão técnica por um dia. Em uma partida contra o Coritiba, em 2022, o então lateral-esquerdo viajou, mas não jogou. Por isso, ficou com o rádio de comunicação em contato com o banco de reservas e deu instruções.


O adjetivo “estudioso” foi unânime entre as fontes consultadas: “Ele está em permanente evolução”. Filipe é o primeiro a chegar e o último a sair do centro de treinamentos do Flamengo. Quando não está orientando os atletas no gramado, passa o dia mergulhado em pesquisas e análises. No discurso e na prática, o próximo jogo é o mais importante do ano, seja qual for.


Desde a base, Filipe Luís tenta se cercar de pessoas que valorizam o amor ao futebol, princípio que ele considera inegociável. Uma delas é o espanhol Ivan Palanco, auxiliar que é braço direito do treinador. Nos treinos e nos jogos, ele aparece constantemente ao lado de Filipe. Participa desde a preparação até a execução das atividades. Há quem não consiga se adaptar ao ritmo. Quem convive no dia a dia admite que a pressão pelo trabalho integral pode pesar.


– Os dois são loucos pelo trabalho – resumiu uma das pessoas consultadas.

O técnico do Flamengo já revelou noites mal dormidas por ficar pensando em planos de jogo. Assiste a jogos de futebol até nos momentos de lazer, quando abre um vinho para tomar com a esposa.


Se costuma trocar ideias mais profundas com sua comissão técnica e jogadores, Filipe Luís é mais reservado em conversas com pessoas que não estão diretamente ligadas ao que acontece no campo. O treinador do Flamengo não gosta muito de manifestar o que pensa sobre tática no dia a dia, mas não se esquiva de abrir suas análises nas coletivas.


A sala de entrevistas pós-jogo é o local mais indicado para entender sua filosofia de trabalho. O técnico, aliás, gosta quando recebe perguntas sobre questões específicas de campo e bola. Entre as pessoas com quem costumar conversar sobre tática está Diego Ribas, seu ex-companheiro no Fla e amigo pessoal.

– Ele não gosta de deixar ser conhecido.


Por isso, as manifestações públicas de Filipe ficam restritas às coletivas pós-jogo. O treinador não concedeu entrevistas exclusivas desde que assumiu o Flamengo. Por dois motivos: primeiro, não quer que as pessoas e, principalmente os técnicos rivais, conheçam mais a fundo as suas ideias; segundo, porque evita qualquer programação que o desvie do trabalho.


Até a roupa que ele usa nos jogos costuma ser a mesma, porque não quer perder tempo com a escolha. Ele também é controlador com quem assiste aos treinos, o que fez os protocolos de acesso mudaram no Ninho ao longo dos últimos meses.


Algumas das críticas a Filipe Luís envolvem ser "cabeça dura" e não abrir mão da convicção. O preparo do técnico ao longo do ano ajuda a explicar essa percepção. Justamente por investir muito no estudo dos adversários e montar a estratégia em cima dessa análise, Filipe muitas vezes se prende ao planejamento.


Quando as coisas não vão bem, ele opta por ajustes no plano tático, e não nos jogadores. Só muda peças se a correção que tentou fazer no decorrer das partidas não funcionar: “Não toma atitudes na emoção”, diz uma pessoa próxima. Alguns comparam o comandante do Flamengo a Pep Guardiola: “Às vezes fica preso à forma de jogar”.


Boa parte das muitas horas que passa no Ninho do Urubu é dedicada à pesquisa. O Flamengo tem profissionais responsáveis pela análise de dados e de desempenho, mas Filipe Luís gosta de participar do processo e moldou o departamento de acordo com sua demanda. Analisa minuciosamente as imagens dos treinamentos e dos jogos e corrige o que detecta ser necessário.


Com pouco tempo de intervalo entre as partidas e, consequentemente, menos horas de treino no campo, o comandante discute suas ideias com o grupo e costuma pensar em formações diferentes para um mesmo jogo, antecipando possíveis esquemas dos adversários. As horas de "sala de aula" são consideradas fundamentais no trabalho dele.

– Como todo técnico, ele vai acertar e errar, mas não por falta de preparação.


O resultado desta preparação está nos números do Flamengo em 2025. O time de Filipe Luís bateu recordes, quebrou tabus e chega à final da Libertadores com 44 vitórias, 16 empates e nove derrotas em 69 partidas. Foi campeão carioca, da Supercopa do Brasil e está na liderança do Brasileirão, dependendo apenas de si para levantar a taça, a duas rodadas do fim da competição. As metas colocadas pela diretoria estão sendo cumpridas à risca.


Para moldar o time ao seu estilo, Filipe Luís não fugiu de “brigas”. Como os treinamentos costumam ser escassos, o técnico exige comprometimento e cumprimento das funções, além de analisar o desempenho de cada atleta em treinos e jogos. As escolhas deixaram jogadores insatisfeitos ao longo do ano, principalmente pela insistência em alguns nomes que viviam má fase e pela falta de espaço para outros que queriam mostrar serviço.


Nas entrevistas coletivas, o treinador do Flamengo defendeu seu grupo na maioria das vezes, mas não deixou passar críticas sutis - ou nem tanto - quando perguntado sobre a falta de oportunidades a alguns jogadores.


A única e marcante vez em que subiu o tom foi nas críticas a Pedro, em julho, dizendo que o desempenho do centroavante nos treinos da semana “beirou o ridículo”. As palavras pegaram mal entre alguns atletas, que gostariam que as cobranças ficassem restritas ao ambiente interno, e incomodaram o camisa 9, que se sentiu exposto. Fato é que o rendimento do atacante melhorou após o episódio.


Filipe Luís também foi obrigado a ter conversas difíceis e tomar decisões duras a respeito de alguns jogadores que antes eram próximos dele. Quando foi chamado para assumir o cargo de treinador após a demissão de Tite, teve um diálogo franco com nomes como Arrascaeta e Bruno Henrique.


A mudança de companheiro para chefe impactou algumas relações. Gabigol, por exemplo, admitiu que não via a hora de voltar a ter o ex-lateral apenas como amigo. Ele buscou mentoria com René Simões, e uma das preocupações foi justamente a transição de companheiro para chefe.


Quem acompanha o técnico desde o início percebeu uma mudança no perfil no segundo semestre deste ano. Filipe Luís amoleceu, ou amadureceu. Ele entendeu que era preciso mudar o tratamento "linha dura" com alguns atletas e "dar mais carinho". O comandante do Flamengo, que antes ia da sua sala para o treino e do treino para a sala, tem investido em mais tempo com o grupo.


Jogar futmesa é uma das programações do treinador, que também passou a organizar uma "pelada" com os colegas da comissão técnica. Um Filipe menos pragmático.


O técnico do Flamengo também exerceu influência nas decisões da diretoria. Foi dele o pedido, por exemplo, pela contratação de Juninho, primeiro reforço da gestão de Bap. Filipe solicitou ajustes na equipe de análise de desempenho e na comissão técnica, indicando a contratação de Rodrigo Caio.


Foi ativo também nas janelas de transferências, seja sugerindo ou aprovando e vetando nomes. Ainda nas questões sobre elenco, decidiu pelos afastamentos de atletas como Pablo, Alcaraz, Lorran, Matheus Gonçalves e Victor Hugo. Entre os pedidos do técnico não

atendidos ao longo da temporada, esteve a contratação de um centroavante para disputar posição com Pedro.


Quem conheceu Filipe como jogador se impressiona com a virada de chave para o modo treinador. Longe de ser adepto das reações efusivas e exageradas, o "Profe", como é chamado por alguns, era mais na dele.


Mesmo assim, já debatia com as comissões, analisava partidas e se preocupava com cada detalhe, como o gramado. "Educado, engraçado e leal", eram descrições comuns a ele. Agora, Filipe Luís se tornou bem mais falante. Não tem medo de dar broncas e cobrar.


O treinador também é conhecido por querer participar de todos os processos e controlar o que pode. Desde a roupa e a logística até a alimentação dos jogadores. Em longos períodos juntos, como a Copa do Mundo de Clubes e a pré-temporada, isso ficou mais evidente.

O Flamengo de Filipe Luís disputa, neste sábado, a partida mais importante de 2025.


O time entra em campo às 18h (de Brasília), contra o Palmeiras, no Estádio Monumental de Lima. O técnico chega respaldado pela campanha, mas uma vitória será divisor de águas na carreira de Filipe, que neste momento está negociando um novo contrato com o clube para 2026.





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Em Lima, Filipe Luís busca primeiro título da Libertadores como técnico do Flamengo — Foto: Adriano Fontes/Flamengo




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